Notas de um Náufrago.

 Certa noite chorei apenas por ter cogitado profundamente o quanto sofreria na vida e a variedade de males que nela experimentaria. Hoje, lembrando-me daquele pranto, pensei que choraria ainda mais, e meu choro alagaria todo o quarto, e haveria mares por onde navegar e se perder, se dentre os males cogitados naquela noite houvesse a tua ausência e o trabalho árduo e penoso que será continuar vivendo sem o teu amparo.

Como a fumaça de um cigarro recém-apagado - que antes ardia, e eu o tragava - me sobraram apenas imagens, vestígios residuais de tua presença: o calor, o cheiro de teu corpo, tua voz ecoando no azulejo do banheiro as canções com que me despertavas todas as manhãs. Cada palavra dita, suspensa agora no ar, descoberta no último bilhete que me deixara – e que ainda me esforço por decifrar – cada palavra sussurrada na vã tentativa de tornar real a tua memória. Mas nada do que se diz depois da intensidade pode resgatar a complexidade de um momento, de uma sensação, da nossa paixão.

Sem ti, sinto meu corpo mais pesado. Foi com dificuldade que hoje o ergui da cama. Tive que dispensar mais força do que de costume. Isto porque me chegava a sensação desta ausência nele. Sim. Algo parecia faltar e isto lhe fazia um peso sobrenatural. Você sabia que os corpos se movem por um desejo próprio? Creio que ele havia se dado conta de que nunca mais levantaríamos por você; sabia disso e, ao contrário de mim, não era capaz de fingir que não havia nada de excepcional em nossa rotina.

Então levantei-o, mesmo com toda dificuldade, tive que o fazer. Ainda por todos aqueles outros motivos que fazem o mesmo mundo girar lá fora; por aqueles mesmos que um dia me separaram de você, obriguei-me àquela faina. Mas a peça que só agora eu percebia o quanto me movia e o quanto me faria falta, nunca mais comporia minha vida. Nunca mais comporia eu mesmo e meus desejos. Então o mundo agora era só um girar, e pro meu corpo seria apenas um vagar por aí, moribundo.

Contemplo esta embarcação naufragada que se despedaça e se fragmenta em direção ao pó indistinto. Mesmo sendo a empreitada inútil, dispensável como o é o próprio barco, gosto de recompô-lo desta forma. O prazer de resgatar em cada uma destas palavras os cacos e dispô-los assim. É este sentimento o melhor amparo que ofereço a mim mesmo agora, o meu cais


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