‘na rua tem de tudo… vixe, de tudo, vários loco… Cada um inventa um jeito. A maioria é catadô. O que num se consegue vendê, se usa… e tem os que vende o que usa, que é usado, que se vende… vixe, váriasistória truta… Outro dia eu tava ali na praça, ali no paisandu, e tinha uns cara de barbona, bancando de pobre, falando alto numasistória de ‘revolução pra libertar o trabalhador da opressaum’… rum… ce acha mano? Aqueles boy do caraio, que nunca tá aqui quando os verme cola pra baté nim nois… que não viu quando o jão perdeu o trampo de uma semana e ficou dois dia na rua porque não tinha como voltá pra casa… nem sei se voltô, nunca mais nem vi falar… deve tê voltado, os mano se vira e uma hora se acha… e o outro, que durmiu uns dia nas marquise porque não tinha os trinta centavo do aumento da passagem pra pega o trem pra voltá pra Osasco… teve que aprender na marra a pula catraca, entrá por trás sem o motorista vê… e vem esses filho da puta dizê que é só trinta centavo… antes dos trinta tem quatro conto mermão, e mais quatro e trinta que o cara cato pra chegar até aqui! ninguém vai dá carona não truta, os cara num qué nem vê nois lá dentro! Os guarda já vê de longe, já sente nosso futum… já mostra o cacete que é pra nois desisti de pula a catraca… e nois pula memo… ali na República, quando começa a junta gente que a fila já tá no pé da escada, nois aproveita e se mete por baixo do lado de quem vem saindo… as vezes uns se fode, leva umas massage numa salinha lá dentro… ainda mais sendo nego que nem nois. Hã? Moreno é o caraio, eu sou é negro e tu é também porra! Vai querer bancá de branquelo pra cima de mim?! Ti fudê… sou negro, joão batista, baiano filho de dona zefa do terreio de mãe nonó, 45 de vida, 30 de são paulo, 20 só de asfalto e não deixo que falem por mim não! Vô te contá viu, o cara vim aqui querê dizê por mim o que eu sô e o que não sô… vá cuidá da tua vida que do meu corre só eu que sei, viu?! Sei do meu e desse povo tudo aqui do asfalto… que faz revolução todo dia… ninguém nasceu pra nada disso daqui não, tio, ninguém nasceu pra nada, mas faz de tudo pra num dá moral pra zé povinho que vem dizé que nois num qué nada com a vida… nois qué, qué muito, qué tudo! mas tudo tem dono… nois vai fazé o que?! O dinheiro é deles, o emprego é deles, o juiz é deles, a palavra, é deles… E nois, tem o que? As pernas pra ajuelhá ou corrê, os braço e as mão pra pedi, roubá ou vendê… a cabeça pra abaixá ou perdê… a língua, pra mentir, gritá ou se cala… Num é lá muita coisa… Mas nois fais muito, viu? É que ninguém vê, ninguém vem aqui escuta nois. Eles só qué nossa desgraça, porque nossa miséria dá mais valor pra riqueza deles. Nois só vale alguma coisa pra nois memo... E quando nois se junta, pra reclamar o que nois tem direito ou ir fazer arrastão lá no centro? Cê num sabe de nada!!!’.
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