Da ensurdecedora presença de si mesmo


    Preciso me lembrar que nada disso, essas exigências todas por clareza e precisão na escrita, na composição de uma “tese”, são relevantes o suficiente para deixar que me entristessam. Retomar a lembrança de que existe algo além dos prédios, dos números, das interrogações, prazos, julgamentos, das notas...
    Já contemplei vastos campos da experiência sem os olhos da consciência. Não estava lá, ainda que percebesse a existência em sua total presença irrefutável. Contemplava com prazer indescritivel o agora, não havia palavras, nada cobrava descrição, e isto me bastava. Nada faltava porque sentia que era imenso, infinito. O prazer alucinógeno de não ser capaz de ser alguém, de perceber as coisas por meio dos limites e fronteiras de uma sensação atada à superfície da pele, às janelas da retina. Após o esturpor, o desespero de ir pouco a pouco perdendo todas as noções de auto compreensão, de auto identificação com as coisas frágeis que a consciência pode tocar, pode reter. Após já não ser capaz de temer a loucura, de não ser capaz de formular qualquer explicação, de não ser capaz de recuperar as cordenadas da memória. Quando se aceita a queda como condição viável do ser, quando se sente toda a precariedade como templo da riqueza. Neste instante, estar aqui e agora têm a mesma relevância do ontem ou do amanhã, isto é, nenhuma, posto que as comuns noções de tempo e espaço se dissolveram na afirmação de uma presença, de uma existência inominável e incontestávelmente real.

    Preciso alimentar a relevância destas experiências. Mas como, se todo pensamento é ruido ansioso por explicação, por quietude numa palavra que encerre? Contemplar a limitação de cada uma destas imagens parciais não parece suficiente, por que o fundo é de uma angustia, uma fome que não tem paladar, muda, insossa.

    Se não há palavra que possa vir para remediar, o que fazer com esses gritos, com essas vozes que tanto paressem cobrar uma resposta, o encadeamento de uma argumentação infindável?

    Ser alguém para os outros, com todas as expectativas, promessas, esperanças que isto envolve, é como estar diante de um jure. 

    Lembrar que a existência é um silêncio infindável. Palavra nenhuma pode...


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