Vozes


(a fala como insurreição contra o silêncio do dito)

"- vou voltar a dormir, estou sem estômago para enfrentar a realidade… Sem vísceras que a queiram vício…"
   Viver como virtude a força daquele outro vício. O de ser outra pessoa, preenchida pela ausência de julgamentos que lhe esvaziam, coibindo o ser, o estar. Neste plano de coisas verdadeiramente inventadas. Dormir, adormecer este ninguém, este olhar crítico que se poda antes da semente tocar o solo. Instar-se. Enraizar na terra a própria terra. Terra deste outro que é e floresce-se. Verdeja. Seiva, clorofila e fotossíntese. O devir sintético e atual deste desejo, daquele desejo, de todos os desejos de todas as pessoas que posso ser quando me permito estar lá, aqui, fora daquele que se cala, se contém. Por medo, medo da desonestidade, de não ser fiel o espírito à letra, fidedigno. Que se imputa a pecha de não ser puro. Maligno. Que amputa a mão com que acaricia as partes íntimas. Esta mão que te alimenta, que te excita. Libertar então a mão suja de gozo, banhada de fezes, de comida. A mesma mão com que expurgas a joia bruta de tuas entranhas renegadas. Com que rasgas, o branco puro das páginas, com a lâmina obscura e incerta de tuas palavras.
   Aceitar e deixar ser essa loucura que é inocência do outro que se insurge no ato mesmo de sua existência. Deixar que digam, que gritem estes outros e suas diversas e indefinidas formas de me habitarem, de existirem neste ato de nosso existir, de durar. Vozes roucas e ansiosas por destronar o silêncio.


   “entre os dedos o cigarro ardia já lá pra menos da metade;
   a cabeça, cambaleava; minha pressão havia caído e eu já não sabia onde apoiar-me com meu corpo. Não havia ninguém naquele bar que eu conhecesse. Nem ao menos de mim mesmo entendia algo. Porque diabos eu ainda estava ali? Afinal, para onde haviam ido todos? Eu só reconhecia estrangeiros; meu reflexo no espelho sujo do banheiro era para mim o menos familiar.
   Tudo foi precedido por um instante de hesitação. Sabia que algo deveria ser feito, ainda que não exatamente o que. Meus tímpanos emudeceram e de meus ouvidos nada mais ouviram, houve quase um segundo de silêncio das coisas bulhentas do mundo. Como um contratrovão… ou qualquer outra palavra que se invente para relatar os fatos de minha experiência subjetiva. Só sei que, do tempo que sucede estes fatos, nada me lembro. Ainda que não parecesse uma queda em direção ao piso empapado de excrementos, logo em seguida espatifei com meu crânio contra o vazo. Ao menos foi o que me disseram os médicos após a cirurgia, creio que já havia desmaiado antes de me encontrar com a cerâmica suja da latrina.
   Era uma situação impossível, impossível é o estado em que me encontro. Ignoro absolutamente a condição habitual de meus pensamentos anteriores ao ocorrido. Desconheço não só quais eram minhas esperanças e temores, mas como se conectavam e seguiam-se umas as outras as ideias em minha consciência. Entretanto, acho-me protegido por este vazio de compreensão, pois não temo a mim mesmo, outrossim, tomo esta desordem e desconexão como a única maneira de realizar-se o plano de minha interioridade mental. Deixo que me venham então frases desconexas, sons, palavras, pessoas outras que são através de mim. Deixo que falem, e então arrasto-as para a ágora destas páginas, a fim de expor-lhes as vísceras, a coerência de seus absurdos. Minha voz é o uivo de uma multidão, e só assim me liberto, despojado de posses não me encerro na propriedade de ninguém”.


- eu vou matar aquele filho da puta! Aquela vadia era minha, ainda ontem mesmo tava na minha cama! Que nojo, mano… ela chupando o pau daquele arrombado… que nem ela chupava o meu, do mermo jeitinho… Que ódio! Mano… Ah se eu tivesse uma arma agora, veio, eu ia lá e estorava os zovo dele e os zoio dela! Mas decha queto mano… Vó ficar na minha, vou nem falar nada não, vó nem dizer nada la no grupo… Quê? Eu dizer lá que tava com aquela vababunda também? Fica feio é pra mim mano! Deixa ele, que teve a chace de filmar e por lá no watzs pá nois… Amanhã eu faço de novo a mesma coisa e não vó querer também que venham falar nada pra cima de mim… tá ligaaaado, mano? Mó fita errada truta… Sou mais eu… Meu carrão do caraio… saca a beca tio!”


      “Juazeiro não é de ninguém, juazeiro é minha. De noite, eu bato todos os bares dessa cidade e bebo eles tudim. Até que se fechem pra mim. Os copos e os gozos dos homens, eu bebo. Porque tudo me pertence antes mesmo de existir. No sexo, já fui a fantasia de muitos. Mas, na minha sabedoria, sempre vou ser pra eles a louca, pervertida. Razão incompreendida. Cigana invisível dançando um chote – som que fazem meus calcanhares quando tocam este chão de pés sujos. E não me importa se me encontram na lama, na ressaca de mais uma noite de lassidão e embriaguez solitária. Me levanto e digo meu nome, Maria do Socorro da Silva. Maldita ou amada, bem-quista ou malfalada, sou eu mesma que me faço. Como faca, cortando a língua de quem fala de mim”.


   A retomada da linguagem. Há dois meses no deserto, mando notícias de além mar. Há, que se violentar o silêncio... exigir-lhe o sangue, a carne, o corpo e, enfim, a voz. A retomado do fio de argumentação anteposto pela dialética da vida. A reparação pelos sentimentos negligenciados, os pensamentos esquecidos, os tropeços da palavra. O âmago destas últimas, dobrá-los no avesso de sua contradição... urgir a mais profunda decisão: escrever; por-se em concatenação de ideias que se ponham, ao risco de toda incongruência, à coragem de enfrentá-las.
   Já é alcançada a hora de expor a violência com que se mantém este estado de coisas, de sítio. Fazer descer deste céu as luzes com que alumeiam o teatro de sombras alegóricas. Propor a religare que comunicará ao futuro os passos do presente. Retê-los, como quem toma nota de uma substância e os processos que sofre, na alquimia que a vida nos faz.
  No estômago, contorce-se alguma coisa que quisera ser vômito, expurgo... alívio. O quarto é habitado por um silêncio sólido, pedra engasgada entre o espanto e a compreensão. Os pensamentos a se perderem na vastidão deste vagão abandonado, a esmo. Chocam-se contra as paredes encardidas da consciência ideias confusas, desconexas, livres em algazarra, num tango melancólico e desordenado.
   No chão frio, o colchão ainda quente. A manhã se faz infinita num instante ínfimo em que dura, no silêncio dos livros na pequena estante, nos papeis rabiscados sobre a mesa, nas roupas amarrotadas dentro do armário... na mudez ante as notícias do novo mundo velho.
  Este mundo que cria-se deixado para trás, transposto para história, inscrito nas ruínas do passado e imagem do que não queríamos para o futuro. Ainda soará o antigo sonho de uma humanidade recuperada? Com que voz louvaremos em seu nome? Talvez não haja mesmo como dizê-la... Há que se reinventar a própria linguagem, pela primazia dos afetos desconhecidos.
  O peito quase rígido num respirar quase insípido, a angustia e a percepção de nulidade das forças e esforços, me empurram contra a aspereza destas páginas, como um condenado ao fuzilamento entre o muro e a artilharia. À espera da palavra final e definitiva que lhe revele o mundo, antes que este se lhe extingua frente aos olhos.

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