Nota de fuga n° 1.


São Paulo, 29 de novembro de 2018.

O que não transforma a sua vida, se curva a ela. Aquilo que não é capaz de alterar o rumo cotidiano, o transcorrer de perdas e ganhos, se ajunta a cena e termina como mais um móvel do cenário. Como uma melodia, acrescentando a música um motivo a mais para soar, sem contradizê-la, sem exigir dos acordes e acordos um novo arranjo de tons, de emoções. É preciso buscar o contrário disso, uma dissonância forçosa, quando se deseja conduzir a saída de alguns instrumentos, de timbres conflitantes. A música é sempre verdadeira, mais que a poesia, a filosofia, mesmo que a matemática. Sete notas, e seus semitons, e acordes, tríades, campos harmônicos… qualquer intrusa nota, uma pouca declinação de corda distensionada, e não há como disfarçar… Ou altera-se todo o arranjo, mudam-se instrumentos, variam potenciômetros de equalização, ou não há outra forma de fazer com que a nova dissonância seja incorporada no que se poderá vir a ser uma música, uma sinfonia. Por isso se exige tão pungentemente que seja ela uma nota forte, mesmo um ruído tornando todo o resto inaudito, obsoleto, equivocado. Mais que tudo isto: existencialmente insuportável.

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