Vidro.

   Vejo às duas da tarde uma tímida claridade transpassar a pequena janela no alto da parede. Ouço, quieto, os pingos baterem no vidro que se esforça por deixar passar apenas luz. Este som me chega acompanhado do barulho do vento e da água que cai na terra empapada, mas o segundo é baixo e distante, pois são grossas as paredes que me protegem. Há aqui apenas um humilde basculante que, no alto, de mim se mantêm distante – além da porta entreaberta a dar para uma sala desabitada.
   Moro em uma casa de um grande jardim. Sei que lá fora as plantas serenam sob a força dos ventos e o peso da água que cai. Mas eu tenho me sentido tão devastado estes dias. Carrego comigo uma eterna sensação de estar sempre no meio do caminho. Ter em minhas mãos apenas um punhado de coisas incompletas – ínfimas o suficiente para escorrerem por entre os dedos.
   Na parede do quarto, o azul parece querer forjar a calma de um céu que em verdade é de um cinza confuso e trevoso, condizente com a chuva, a tempestade, a devastação. Lá fora o vento faz girar moinhos e ouve-se apenas o ranger das peças que para mim é o moer dos sonhos e das paixões. Tudo o que jaz sobre a pele há de se desfazer e ser levado. Nem os pelos se manterão eriçados e até mesmo o desejo esfriará. Tudo há de se desfazer, tudo há de se desfazer.
   Eu aqui permaneço trancado, o vidro parece proteger-me. Frágil vidro, tão frágil minha alma. Existem tantas coisas pelo mundo que não temem se espatifarem, que não temem o estilhaçamento e a perda de si em ínfimas partes fragmentadas e incongruentes motivos. Perda da transparência. Já eu: sou todo medo, espírito em frangalhos.
   Deitado, dobro as pernas e curvo a coluna até encostar os joelhos junto ao peito. Encolho-me todo, como se tentasse conter-me em um único abraço. Gostaria mesmo que fosse possível recompor toda a minha presença em uma única sentença. Antes, num poema. Eu seria um cristal tão fino, um vibrar tão agudo; seria de uma matéria que nenhum som me alcançaria. Permaneceria, numa aparente mudez, incólume em meio a balburdia do mundo.
Mas sou rio a desaguar dentro de mim mesmo. Sim. Deságuo nas mares de minhas paixões. Eu mesmo firo-me numa violência íntima de ser, embebido que sou de meu próprio mar. Encontro-me só em meu oceano. Estou e sou só oceano. 

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