ONÍRICO

Na rua, entre nós e o céu, uma imensa rede se estendia na altura dos postes. Era de aço e bem fina, quase tecido. Os quadros que a compunham eram do tamanho suficiente para que pudéssemos passar por dentro deles nossas mãos, mas não permitiam que colocássemos a cabeça para fora daquela cerca que nos cobria – “Protegia-nos? De quê?”. Nas arestas, viam-se pequenas caixas, microchips talvez. Nossa casa não era a mesma; morávamos em um apartamento de teto baixo, paredes de um amarelo encardido. 
Ouvi ao noticiário que a Itália era o primeiro país a declarar falência. Falavam como se ela fosse uma espécie de País-Corporação, e eu não apercebia-me a estranhar aquilo. Havia um tom catastrófico na notícia, algo se passava no mundo inteiro: talvez uma Terceira Guerra Mundial envolvida por uma Crise Financeira Generalizada. 
         Tudo isto em uma civilização muito diferente da que estamos habituados.
Antes de acordar, éramos eu e minha mãe a chorar num mesmo abraço: eu, por mim e por toda a humanidade; tinha a impressão de que ela não era capaz de sentir tamanho sentimento de compaixão pelos outros de nós. Pensava assim porque desconfiava que ela não entendia o que se passava com o mundo naquele momento. 
Com o rosto alagado, beijava o seu pescoço suado enquanto ela me apertava, mesmo trémula, contra o corpo. Identificávamos-nos em nossas lágrimas mas eu tinha aquela impressão de que não éramos afetados pelos mesmos motivos. A causa de seu sofrimento era o que via ao seu redor, a situação em que nos encontrávamos naquele momento. Agora ocupávamos um cubículo totalmente oposto em tamanho ao lar de antes. Tinha a presente habitação um aspecto industrial. Um andar sem muitas janelas de um prédio de mais outros nove andares – do qual a altura não atingia a de um que devesse ter oito: era baixo, estreito e mal ventilado. Durante todo o sonho não me lembro de ter visto uma só janela. 
Meu corpo estava cansado, sentia que algo lhe faltava e isso o fazia mais pesado. Respirava com dificuldade, parecia não haver ali ar o bastante para preencher meus pulmões.  Meu peito se comprimia e o pranto era intensificado por um sentimento de que tudo aquilo que se via descia de uma avalanche ainda maior; eu sofria como quem tinha total compreensão do peso e do significado de tudo aquilo que ocorria com todos nós, ainda que durante a experiência não houvesse pensado nos fatos que instituíam aquele cenário.
       Faltava-me muito e sobrava em mim o que me impedia de mover-me; sentia náuseas, como se fosse toda a nossa cultura revolvendo-se dentro de meu estômago. A fadiga muscular, somada à percepção das minhas roupas marrom farda enegrecido de graxa, não me deixavam esquecer da condição de operário arrendado em que me encontrava – também esta verdade me apareceu no sonho sem que eu precisasse refletir sobre ela. 
       Todas estas sensações se fundiam em uma convicção tácita de que a existência humana sobre a terra havia se tornada ainda mais contraditória. O fosso em que afundávamos cada vez mais rápido era ainda mais sujo, e a imundice também não cessava de aumentar, se alastrando por sobre a pele e penetrando por todos os poros e orifícios. Tais coisas envolviam-me de uma maneira tão aprisionante quanto se faziam naquele momento os braços de minha mãe; a tristeza e a angustia que sentia e me faziam buscá-los, mantinham-me cativo; quanto o véu de aço que nos separava do céu lá fora.
      Chegava a ser repugnante – além de prebenda – uma tentativa de reflexão sobre a nossa condição, de tão insuportável que ela também se tornaria. Mesmo que eu tentasse negar a verdade de tudo aquilo, refugiando-me em meu solipsismo, à minha procura tornava todo aquele ar fétido, que parecia emergir do bueiro do esgoto dos outros séculos que compunham a história humana, a envolver e invadir meus pensamentos de forma que era impossível fugir deles mesmo que eu me trancasse na alcova de minha consciência. 
    Era eu labirinto, Minotauro, a astucia, a confusão, a paixão e o delírio de Teseu, de Dédalo, Minos... e sobretudo de Posêindon. A obediência dos atenienses, em seu reverso, a do neto de Piteu. O amor de Ariadne, ulteriormente, a mão que guiava. Sendo eu metáfora, era o enigma e a via de interpretação para mim mesmo. Era incompreensão, na qual me encerava, na busca por definição – imagem que traçasse em linhas nítidas o quadro surrealista em que minha existência se desenvolve.

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