Diário de bordo, nota I


Não consegui nada de fixo nestes últimos meses. Me esforço pra proteger-me das suspeitas e desesperos dizendo para mim mesmo que não é esse o momento, que é preciso esperar e garantir que condições mais favoráveis possam aparecer no futuro. Tenho me esforçado para ao menos conseguir ser um bom companheiro para alguém que tem me ajudado muito. Sou sinceramente grato a ela, e me agarro a isso e as boas memórias quando tudo parece um barco prestes a afundar e que não vale ser salvo. Às vezes amo-a, as vezes a odeio; as vezes quero que esse instante se prolongue, as vezes me ponho a espera de algo que seja capaz de acabar com tudo e até chego a atitudes descabidas, como quem procura as cegas a saída de um quarto escuro. Qual o efeito de uma consciência mais clara sobre o que move meus desejos? Não sei ainda, ao menos não claramente. Eu mesmo não tenho conseguido me voltar muito. Desconfio que a maioria de nós vive tão empurrado por sentimentos intensos e confusos (saudades, decepções, frustrações, desejos por pessoas e objetos que se multiplicam em variações, preços, marcas), que tudo isso nos deixa distante demais pra enxergarmos as cordas que nos movem, quiça o efeito desse conhecimento. Mas é algo que me inquieta, a liberdade, essa ansiá por querer ter tudo, não estar preso a nada, e essa dependência toda, a insistência em render-se por amor, em voluntariamente entregar-se. Não gosto da palavra "casamento", prefiro pensar que estamos num sistema em desequilíbrio que oscila e que se mantém, dinâmico e múltiplo, apesar de tantas tempestades. Quem, ao unir-se profundamente a outra pessoa por sentimentos, não é tomado por isso? Usamos das palavras para navegarmos e tentarmos transpor esse oceano de intempéries que é o nosso coração, que somos nós mesmos. Mas o mar sempre retorna para cobrar os seus, ele sempre nos emudece. 

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