Encontra-se impostado sobre a estante de meus livros um anjo, cocho. Não tem mão esquerda, o coitado. Perdera quando da ultima vez em que foi ao chão, empurrado por um tomo de maior peso - “A intensidade da força que sobre ti recaiu foi proporcional à velocidade com que teu corpo se deslocava e a massa de que tu és feito”. Caíra e fora lá ter com o canto da parede. Somente quando fui ali buscá-lo, a fim de restituir-lhe o lugar, dei-me conta do estrago que se fizera. Achei pouco até – para uma estatua de fina louça.
Foi dar-se em pedaços miúdos, a sua canhota. Eram tantos e tão ínfimos que pensei não estar ela toda ali, ou então eram os meus olhos a não vê-la. Fragmentara-se no encontro com o piso frio de meu quarto, e já não havia mais com que ter jeito: estava cocho. Contemplei-o em tempo espaçado, todo comiseração.
Enfim, consolei-me: era uma estatua – nunca sentirá falta daquilo que vez nenhuma usou. Uma situação em que precisou proteger ou defender-se com os punhos, nunca houve, jamais haverá. Era o curandeiro – não aquela efígie. Sempre fora uma estatua, o que acresce-lhe agora é o epíteto de Arcanjo, mas que os outros, Destro.
Tal qual talharam no aço pregado à base de seus pés, também tive eu posto em minha certidão o nome: “Rafael”. Tal qual ele, também caio, espatifo-me ao chão; torno-me igualmente menos a cada vez que sou restituído. Fragmentamo-nos tanto, que de nós somem-se coisas, decompõem-se partes inteiras – e já tanto me falta...
Vejo-o agora, inerte, ainda sobre o mesmo móvel dantes. Eu, porém, como uma vela que vai sendo comprimida pelo peso da chama ardente: inerme.
Ademais, já nasci demônio.
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