Para uma interpretação espinosana do corpo e da alma de uma personagem de Kundera


O corpo e a alma de Tereza* jamais estiveram separados. Só Tereza, e Kundera e, mais do que todos, Descartes**, não haviam percebido. Aquilo que nossa heroína procurava diante do espelho sempre estivera com ela, porque Tereza sempre fora ela mesma: seu corpo próprio e a consciência de sua existência. Reprimida e destituída de qualquer direito à intimidade, à liberdade e à anseios próprios, Tereza, ou aquilo que nela ninguém havia ainda nomeado, estava oculta. Escondida de si mesma à sombra do destino de sua mãe; e era somente sob a força deste corpo que o seu próprio fugia àquele cenário de opressão em que se encerava Tereza, e a alma de Tereza. E é justamente esta composição, que não é senão o corpus da existência de Tereza e seu esforço, desejo por ser, que se põe frente ao espelho, que dirige-se para atender aquele homem singular no mesmo restaurante de todos os dias; a mesma existência particular que atravessa a madrugada num trem em direção a casa de Tomas; a mesma pessoa que, enfim, encontra-se na soleira da porta da casa daquele outro destino que, desde de a primeira vez em que o vira, o amou, o desejou, a ele quis se unir. Este mesmo corpo que, conjuntamente com a obra de Bethoven e de todos os livros que Tereza lera e estavam juntos à Tomas quando eles se encontraram, determinou a vida dela e toda sua busca por uma leveza que sempre foi mesmo inominável. Compreender a história de Tereza, sua trajetória libertária, por uma perspectiva espinosana é, antes de tudo, um esforço por tomar a narrativa do autor que a descreve, Kundera, da mesma forma que a própria filosofia de Descartes, não como uma explicação racional dos dilemas da humanidade com o dualismo de alma e do corpo, mas apenas como uma descrição imagética e afetivamente determinada pelos afetos de ambos – da personagem, do escritor e do filósofo. Me parece ainda mais curioso, no tamanho em que isto me instiga, pensar que a própria Ética de Espinosa, sua ciência e geometria dos sentimentos humanos foi, também ela, engendrada por uma teia de sentimentos e fatos particulares da história de seu autor, de sua vida. Espinosa, Van Gogh, Tereza, Carolina Maria de Jesus, e tantos outros com semelhante dignidade, são assim existências singulares que se fizeram e se exprimiram no mundo por meio de suas ideias e de suas atitudes, e não há desacordo ou privação que se possa apontar na necessidade do que a vida fez deles.


*Do livro "A insustentável Levesa do Ser"
**Sobre a relação entre Tereza e o dualismo de Descartes, conferir artigo meu em: https://grudars.wordpress.com/2013/08/29/o-dualismo-da-alma-e-do-corpo-de-descartes-numa-personagem-de-milan-kundera/

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