Post Scriptum a um Texto Inacabado

16/05/2017

Será ao fim das contas necessário compreender, conter-se e aceitar que a verdade da experiência com o corpo e a alma, o que quisemos chamar aqui de a compreensão da experiência da necessidade psicofísica de um afeto, só a muito custo nos chega às vistas, quiçá ao conhecimento e a contemplação. Lá onde a igualdade entre a mente e o corpo de um ser singular se faz e se funda na necessidade de sua essência atual mais determinada: experimentar o gosto do sol da primeira manhã em lugar nunca antes visitado, o último arrebatamento por uma memória desse momento… Tentemos ser mais específicos então: o movimento de um olho em direção ao objeto que lhe exita, o desejo de um pintor, sua intenção ao principiar um quadro, a alegria experimentada com a satisfação de ver a obra acabada. Um fulminante e tenaz anseio por superar-se e ser maximamente o que a natureza lhe faz, uma admiração por um determinada efeito da luz refletida na natureza das coisas, a busca por capturar o movimento fugaz delas em seu estado mesmo de coisas vivas, o desconforto insone que não é senão o sempre ausente contentamento consigo próprio… Vincent, um pincel, tintas e o quadro, contemporaneamente estrelando nossas noites de balburdia silente… Como medir o quão verdadeira, sincera, mesmo original, digamos, “capaz de exprimir sua época”, esta mesma obra ou qualquer outra é, referindo-a e aferindo-a ao caráter e as intenções de seu autor? Aceitemos companheirxs, um espectador atento e cientificamente empreendido não seria capaz de enxergar tão perto, nem mesmo próximo daquela sensação de perda das fronteiras interiores ante a tamanho contentamento. Aí mesmo, quando não cabe mais nomear, porque já não servem, nem delas se carece mais, as palavras ou as ideias. Onde se faz uma certeza ontológica porque constituinte, a do próprio ser em sua mais inteira singularidade… Há mesmo que aceitarem elas, as próprias palavras, que nunca chegarão até aqui. Talvez mesmo só a poesia seja capaz de nos levar tão longe. Que seja dela, então, a última palavra: “Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh” (Manuel de Barros).

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