Grito nº 7

Inventar uma forma de escrever sem maltratar as forças
escrever sobre coisas pesadas sem esmagar-me antes de começar
ouvir o canto do pássaro que desperta antes do sol
traduzir a nostalgia incomunicável num desenho inventado
desenhar uma simples beleza como resposta ao ódio
viver a rica inutilidade de algumas horas
livrar-se da obrigação e redescobrir o desejo numa tarde distraída
falar com a voz profunda que quer ser só ouvida
ter algumas palavras como forma de afago
estar pleno de meu vazio
retribuir o amor com uma presença quieta
desejar a quietude
aceitar que não é possível o esplendor do poente todos os dias
e que é o sol quem escolhe onde vai nascer belo e magnífico
que o mundo não cabe numa palavra e que a primeira frase não precisar ser o início
que é possível viver sem razão mas não ser desonesto
consigo mesmo
entender que a vida não é um bloco que apenas muda de lugar
que ela ainda vai ser outra, porque é isso que ela quer, porque é nisso que ela se faz

a distancia é longa, mas os dias podem ser estreitados


Paris, novembro de 2015

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