Ana e o Mar


I


- Preciso ir ao porto, quero ver se há lá trabalho para mim.
    Dizendo assim, sem mais despedidas, saiu, quando o sol ainda não aquecia como o calor da cama que abandonava. Eu também costumava levantar-me cedo, mas naquele dia deixei-me estar ali um pouco mais, ouvindo a sonata matinal das gaivotas e o mar, distante. Por fim, levantei-me. Os chinelos ainda estavam frios, o que significava que a madrugada havia sido de torrentes e baixas temperaturas na praia. Não me lembro de ter notado, aquela mulher preenchia muito bem nossa cama com o calor e a extensão de seu corpo.
    Abri a janela. A pouca claridade do céu nublado pode enfim deitar-se sobre a cama e timidamente iluminar os utensílios na cozinha. Aquelas quatro paredes cobertas com um teto de palha eram todo o vasto império que me cabia, e eu me achava o homem mais rico de toda a aldeia. Agora estava só, mas o vento que ali adentrava trazia consigo, lá de longe, o cheiro da praia e de todas as outras casas que encontrava pelo caminho. Nada parecia faltar, e ainda que Ana, por vezes, pensasse que não conseguiria o suficiente, eu trazia comigo a gratidão por estarmos ali e, sobretudo, por ela jamais me haver tido privado da segurança que sentia ao seu lado.
    Não falo de gratidão como se quisesse dizer que sinto-me em dívida, mas refiro-me precisamente a um sentimento de plenitude. A constatação de que possuo, neste momento, o suficiente, o mínimo necessário para enfrentar todas as outras contendas desta vida. Então minha gratidão não consiste em por-me a agradecer a quem quer que seja, mas pacientemente aquietar-me e viver este quinhão de existência que me foi dado, unindo-me à realidade em que me encontro. Como um mar, pleno de suas confusões e correntes férteis de possibilidades, abro-me para os rios e recebo suas águas, para que me preencham e, o quanto meu apego e orgulho lhes permitir, me transformem. 
    Como Ana, e estes seus nascedouros e desaguares dos quais nada sei. Nada sei, de seus mistérios ou das margens que lhe oprimiram desdo princípio de seu fluir, desde seu estar neste mundo quase sem espaço para tanto desejo por liberdade. Posso apenas especular, eu, tão munido de astrolábaros e bússolas, ancoras e velas que roubei das embarcações nas quais eu mesmo me naufraguei. Ainda que assim tão imprevisível e periclitante, confio-lhe a força para enfrentar os gigantes de mares jamais concebidos por mim. Monstros dos quais sou eu mesmo habitado e ela, sempre tão tenaz, pôs-me a fitar-lhes a crueldade das mãos plácidas, a cegueira de olhos anelantes, os ouvidos surdos de tanto só a si mesmo ouvir. 
    Tanto ela me ensinou e de mim ela algo tão distinto fez, que aqui me deixo a ouvi-la numa faina apenas por, agora, traduzi-la. Este seu idioma secreto de um continente ao qual jamais serei nativo, jamais serei ao menos aceito. E se toda tradução pode ser dita pérfida pela traição que executa, assumo o crime perpetrado por cada uma destas palavras, pela impossibilidade mesma de descrever de outra forma esta tarefa a que me proponho. 
    É bem observado que o oceano recebe as águas, mas pouco retém e entende da substância densa que move e transforma os rios. Apenas é transformado e nutrido de águas novas, num sistema mecânico que é a nossa própria percepção das coisas com as quais nos encontramos e somos afetados. Pelas quais nutrimos algum afeto. Mas o conteúdo mesmo de cada ser, seu devir interno pelo qual se põe e permanece existindo, resta oculto e inalcançável, mesmo aos olhos do mais aplicado intelecto. Só quem habita um idioma pode explicá-lo e comunicar as sensações de seu corpo, o resto é falsificação pouco verossímil.
    Dividimos eu e ela esta habitação simples e frágil, beirando o limite do imaginável e do concebível por qualquer ficção. O suficiente para abrigar dois desejos que um dia almejaram compor uma mesma vida. Uma composição nem sempre harmônica, unida por um fio incompreensível.

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