Grito nº.6

Este perfil, sítio eletrônico será deletado dentro de 24 horas. Uma desterritorialização performática. Todas as ações programadas numa sociedade midiática e espetacular são performáticas – supõe-se. Será como um salto olímpico numa piscina de bytes de informações convulsivas; a alma permanecerá seca, encharcada apenas de confusão. As opiniões e argumentos escorrendo das vestimentas, sem penetrar os poros, empossando o assoalho de largos açudes de inércia e letargia. Nem Arakiri nem cicuta; só há suicídio quando existe vida. E esta, passa ao largo das expectativas de atenção, respostas, conselhos, discussões sem diálogo algum. Ninguém espera carregar os últimos feeds antes do tapa, do assédio, do estupro… A vida passa ao largo, talvez em baixo da minha janela, ou há quilômetros das saída da bolha onde moro, e aqui ao lado, a um gesto de mão e um clique, um mundo de realidade capturada ou inventada a oferecer-se ao voyeurismo de olhos sádicos, masoquistas ou indiferentes. Meu ponto – tão ínfimo quanto um alfinete a quem me prendo e só eu me sustento agora nesta nuvem de especulação - é: o corpo resta esquecido e esquecendo-se; dançando na ponta dos dedos, vibra apenas a última melodia tensa de um adeus que ninguém escuta ou vê, pois os de dentro estão ocupados em sua encenação, e os de fora não os veem. Claro, é apenas nisto em que se diferenciam “os de dentro” e “os de fora”. O palco se estende para todos os viventes, uma maldição a qual estamos presos e cogitá-la não faz nenhuma diferença. Dizê-la, talvez menos ainda. Olhamo-nos, e nos ignoramos. Porque a rotina exige pressa, dedicação e esforço. O seu outro sem sorte que esmola na calçada, e você desejaria não o ter visto, “estou atrasado para o meu atraso”, “preciso correr antes que passe aquele ônibus que não me levará a tempo”. A vida passa ao largo, e é tão maior, que escapa.
Amanhã, nalgum dia de um futuro que não presenciaremos, talvez um noticiário passe a repetir para uma floresta sem nós:

Mainframes
estendem-se por todo o litoral
A primavera é um zip
esquecido entre fotos publicadas no Instagram

O crepúsculo é ocultado por raios atômicos
e bombas h's
celebrando mais um reveion da era digital

O homem é um arquivo não salvo
antes de cair o sistema

Um monitor de Led's
explode-se em borboletas holográficas
que invadem a word web
disseminando elétrons desorientados
pela mais nova lei de mercado

O login de uma virgem
delicia-se nos lábios de um fio desencapado
Uma gota de bytes
com a sequência da última chuva
desprende-se do teto
e cai
numa possa de cristal líquido

O som deste fenômeno,
lânguido,
ecoa pela sala a quinta sinfonia de Betthoven
num download melancólico dos últimos sentimentos humanos

Um hardware mal intencionado sobrevoa os dados,
registra tudo
e adoece,
colérico e entediado

Um modem conecta-se ao vírus terminal...
a proliferação do caos é inevitável

Efetue seu logout e ignore as informações não armazenadas
O último instante de lucidez
não poderá ser restaurado por nenhum disco de recuperação”.


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