Este
perfil, sítio eletrônico será deletado dentro de 24 horas. Uma
desterritorialização performática. Todas as ações programadas
numa sociedade midiática e espetacular são performáticas –
supõe-se. Será como um salto olímpico numa piscina de bytes de
informações convulsivas; a alma permanecerá seca, encharcada
apenas de confusão. As opiniões e argumentos escorrendo das
vestimentas, sem penetrar os poros, empossando o assoalho de largos
açudes de inércia e letargia. Nem Arakiri nem cicuta; só há
suicídio quando existe vida. E esta, passa ao largo das expectativas
de atenção, respostas, conselhos, discussões sem diálogo algum.
Ninguém espera carregar os últimos feeds antes do tapa, do assédio,
do estupro… A vida passa ao largo, talvez em baixo da minha janela,
ou há quilômetros das saída da bolha onde moro, e aqui ao lado, a
um gesto de mão e um clique, um mundo de realidade capturada ou
inventada a oferecer-se ao voyeurismo de olhos sádicos, masoquistas
ou indiferentes. Meu ponto – tão ínfimo quanto um alfinete a quem
me prendo e só eu me sustento agora nesta nuvem de especulação -
é: o corpo resta esquecido e esquecendo-se; dançando na ponta dos
dedos, vibra apenas a última melodia tensa de um adeus que ninguém
escuta ou vê, pois os de dentro estão ocupados em sua encenação,
e os de fora não os veem. Claro, é apenas nisto em que se
diferenciam “os de dentro” e “os de fora”. O palco se estende
para todos os viventes, uma maldição a qual estamos presos e
cogitá-la não faz nenhuma diferença. Dizê-la, talvez menos ainda.
Olhamo-nos, e nos ignoramos. Porque a rotina exige pressa, dedicação
e esforço. O seu outro sem sorte que esmola na calçada, e você
desejaria não o ter visto, “estou atrasado para o meu atraso”,
“preciso correr antes que passe aquele ônibus que não me levará
a tempo”. A vida passa ao largo, e é tão maior, que escapa.
Amanhã,
nalgum dia de um futuro que não presenciaremos, talvez um noticiário
passe a repetir para uma floresta sem nós:
“Mainframes
estendem-se
por todo o litoral
A
primavera é um zip
esquecido
entre fotos publicadas no Instagram
O
crepúsculo é ocultado por raios atômicos
e
bombas h's
celebrando
mais um reveion da era digital
O
homem é um arquivo não salvo
antes
de cair o sistema
Um
monitor de Led's
explode-se
em borboletas holográficas
que
invadem a word web
disseminando
elétrons desorientados
pela
mais nova lei de mercado
O
login de uma virgem
delicia-se
nos lábios de um fio desencapado
Uma
gota de bytes
com
a sequência da última chuva
desprende-se
do teto
e
cai
numa
possa de cristal líquido
O
som deste fenômeno,
lânguido,
ecoa
pela sala a quinta sinfonia de Betthoven
num
download melancólico dos últimos sentimentos humanos
Um
hardware mal intencionado sobrevoa os dados,
registra
tudo
e
adoece,
colérico
e entediado
Um
modem conecta-se ao vírus terminal...
a
proliferação do caos é inevitável
Efetue
seu logout e ignore as informações não armazenadas
O
último instante de lucidez
não
poderá ser restaurado por nenhum disco de recuperação”.
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