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Porque quando Manoel de Barros escreve “A chuva deformou a cor das horas” (O Livro das Ignorãças, 1993. p. 43), num poema dedicado à experiência de um náufrago em rio transbordado, ele explica algo que só com muita teoria fenomenológica, talvez, se alcançaria. Pois, não parece claro que a deformação da “cor das horas” muito bem nos representa aquele instante do dia em que uma brusca variação do tempo climático distorce, obscurece e transmuta nossa relação com o tempo cronológico? Quem nunca teve uma tarde tornada opaca, cinzenta languidez, por súbita tempestade? Se não corrige a linguagem em sua inerente limitação, me parece, a poesia (como tantas outras artes de que se possa servir para semelhante valimento) lhe oferece pernas com que pode alongar-se, mãos com que pode estender-se e tocar, ainda que na mais tênue superfície dos dedos, a tez confusa da realidade.
E o que dizer da “a cinza das horas”, de Drummond?
Por hora, fiquemos com um pouco mais da sabedoria de Manuel:

“No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava lá no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinho.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.”


                                                             (O Livro das Ignorãças, 1993. p. 15)

Um comentário:

Luciana disse...

Põe fenomenologia nisso...