A retomada da linguagem.

Há dois meses no deserto, mando notícias de além mar. Há, que se violentar o silêncio... exigir-lhe o sangue, a carne, o corpo e, enfim, a voz. A retomado do fio de argumentação anteposto pela dialética da vida. A reparação pelos sentimentos negligenciados, os pensamentos esquecidos, os tropeços da palavra. O âmago destas últimas, dobrá-los no avesso de sua contradição... urgir a mais profunda decisão: escrever; por-se em concatenação de ideias que se ponham, ao risco de toda incongruência, à coragem de enfrentá-las.
Já é alcançada a hora de expor a violência com que se mantém este estado de coisas, de sítio. Fazer descer deste céu as luzes com que alumeiam o teatro de sombras alegóricas. Propor a religare que comunicará ao futuro os passos do presente. Retê-los, como quem toma nota de uma substância e os processos que sofre, na alquimia que a vida nos faz.  
No estômago, contorce-se alguma coisa que quisera ser vómito, expurgo... alívio. O quarto é habitado por um silêncio sólido, pedra engasgada entre o espanto e a compreensão. Os pensamentos a se perderem na vastidão deste vagão abandonado, a esmo. Chocam-se contra as paredes encardidas da consciência ideias confusas, desconexas, livres em algazarra, num tango melancólico e desordenado. 
No chão frio, o colchão ainda quente. A manhã se faz infinita num instante ínfimo em que dura, no silêncio dos livros na pequena estante, nos papeis rabiscados sobre a mesa, nas roupas amarrotadas dentro do armário... na mudez ante as notícias do novo mundo velho.
Este mundo que cria-se deixado para trás, transposto para história, inscrito nas ruínas do passado e imagem do que não queríamos para o futuro. Ainda soará o antigo sonho de uma humanidade recuperada? Com que voz louvaremos em seu nome? Talvez não haja mesmo como dizê-la... Há que se reinventar a própria linguagem, pela primazia dos afetos desconhecidos.
O peito quase rígido num respirar quase insípido, a angustia e a percepção de nulidade das forças e esforços, me empurram contra a aspereza destas páginas, como um condenado ao fuzilamento entre o muro e a artilharia. À espera da palavra final e definitiva que lhe revele o mundo, antes que este se lhe extingua frente aos olhos.

São Paulo, entre março e maio de 2014.

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