Des-lapidar Diamantes

A existência lhe parecia tão misteriosamente bela, incognoscível e inexpressível, que chegava a tirar o sentido e a razão das coisas óbvias para que também elas tomassem a forma do extraordinário. Fazia-o com um prazer misturado ao medo de que também ele fosse engolido por aquele espiral de dessignificados. Em verdade, sua ingenuidade ainda o protegia de perceber que o abismo não se abriria sob seus pés, mas já era o oco mesmo de seu ser. Num ofício único e de riqueza inigualável, usava assim sua razão como um prisma ao contrário: ao invés de sintetizar o múltiplo em pálidos conceitos, pulverizava tudo o que aprendia numa multicolorida experiência com as coisas banais do dia-a-dia. Por exemplo, o sol, já não o esperava mais, porque sequer o chamava assim. Abria os olhos pela manhã e se deleitava em senti-lo como se fosse, todo dia, aquela a primeira vez que o sentia como o fenômeno mais indescritível de todos. Assim se passara com ele, até o momento em que lhe convenceram da necessidade de armar-se em convicções, e de que contra o novo era exigido precaver-se.

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