Tenho me surpreendido com a naturalidade com que arranjos e frases musicais têm surgido de meus dedos quando estou tocando violão. Aos poucos eu fui executando as progressões de forma cada vez mais consciênte. Percebo que é como se o som de meus dedos vibrando as cordas, pouco a pouco, fosse se tornando melodicamente audível ao ponto de calarem as outras vozes, essas vozes todas que tomam minha atenção, em todas as ações. Vozes que me tomam de mim. Estou exausto de tanto ouvi-las. Exaurido desta luta diaria por auscultar-me e só ouvir gritos.

Que me dizem

Não.

Que me cobram.

Dos que me medem.

E dizem ainda não,

Não é o bastante. 

Como fazer soarem as palavras? Como libertar a palavra escrita, essa verve bruta

a palavra chega

a palavra basta

a palavra quero

desejo

excito

ereto

Como, se não pela própria escrita? Até que apenas ela soe, apenas ela e suas forças, e seus medos, e sua fúria contida, calada, seja capaz de gritar mais alto

mais bela

altiva indolente

vibrante 

...

 

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