Cecília Meireles, Poesia Completa, p.306.
Mas qual, Cecília, há de ser essa salvação? O que guardamos de nós antes da partida, depois da chegada? Assim como a ferrugem parece ser o castigo dos deuses por ousarmos usar de matéria quase imortal, então será o equívoco das palavras o limite do que podemos reter desse mundo... Decide por voltar a escrever, para além do que essa interminável pesquisa sobre a linguagem me exige e o doutorado me cobra - escrever para mim e por mim... estou sempre tomando essa decisão e dela me distanciando... Talvez como uma luta feita de ataques e fugas... Decidi, já há muito tempo, não negar as paixões, mas nelas mergulhar em busca das forças que não tenho, posto serem elas a única realidade deste mundo, a fonte divina de todas as coisas. Então não vou virar a cara, repetindo discursos mesquinhos de racionalidade insípita e a fábula da raposa. Vou olhar com alegria e tirar proveito de tudo isso que me desperta o outro. Porque, no amor, não é a presença ou posse do objeto que importa. São coisas que não podemos garantir, e não é este o fim que quer o desejo... O principal é o efeito que o outro causa em mim e o quanto eu mesmo participo nisto, o quanto tal efeito exprime a mim mesmo. Me parece este um pensamento que nos convida a aceitar a distancia que nos separa do outro, mas também a viver a maior beleza que pode haver no encontro com ele: despertar em nós vontades que não podemos suscitar sozinhos. Sou um ser feito de mil paixões, quisera conseguir eu fazer com que todas elas venham terminar aqui, na imprecisão descompromissada destas palavras.
Juazeiro do Norte, agosto de 2022.
*Referência ao livro de Manuel Bandeira, A Cinza das horas (1971).

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